Realizei o sonho de dez anos: atravessar a Isla del Sol a pé! Acompanhe meu relato sobre o trekking de norte a sul no Lago Titicaca, lendas incas e um alinhamento planetário mágico.
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Parte 1 – O Berço dos Incas: Realizando o Sonho de Caminhar pela Isla del Sol
Depois de um café da manhã reforçado no hostel e de me despedir dos cachorros da casa, era hora de colocar o pé na estrada. O destino do dia era um lugar que eu sonhava conhecer há pelo menos uns dez anos. Finalmente, aquele desejo antigo estava prestes a se tornar realidade.
Caminhei em direção às margens do Lago Titicaca, onde diversas agências oferecem passeios para a Isla del Sol e a Isla de la Luna. Tentaram me convencer a visitar as duas pelo preço de uma, mas eu tinha um objetivo claro: queria atravessar a Ilha do Sol a pé, fazendo o clássico trekking de norte a sul. Comprei meu bilhete focado nesse plano e parti.
O Início da Jornada: Entre Povoados e Águas Sagradas
Após pouco mais de uma hora de navegação, desembarquei na porção norte da ilha. O local é dividido entre três comunidades: Challapampa (ao norte), a mais autêntica e interessante; Challa (no centro-oeste), que oferece os visuais mais impressionantes da trilha; e Yumani (ao sul), onde se concentra a maior infraestrutura de pousadas e restaurantes.
Antes de começar a subida, fiz questão de me “batizar” nas águas do Titicaca, molhando o rosto e a cabeça em um gesto de respeito. Dali, segui caminho passando por sítios arqueológicos fascinantes, como a Rocha Sagrada, a Mesa de Sacrifício e o Labirinto (Chinkana), iniciando oficialmente minha travessia rumo ao sul.
Lendas e Paisagens: Onde o Império Começou
Caminhar por essa ilha é mergulhar na história. Segundo as crenças andinas, a Isla del Sol foi o berço da civilização Inca. Conta a lenda que Inti, o Deus Sol, enviou seus filhos Manco Cápac e Mama Ocllo para ensinar aos homens a arte da caça, do plantio e do cultivo da lã.
Eles teriam emergido das águas do Titicaca para fundar essa pequena civilização, marchando depois para o norte. Onde seu cajado de ouro afundasse, ali seria erguida a capital do império — o que aconteceu exatamente em Cusco, no Peru.
Enquanto eu absorvia essas lendas, a paisagem me deixava sem fôlego. A sensação é a de caminhar sobre a crista de uma montanha, mas completamente cercado pelo azul profundo do lago. É, verdadeiramente, um cenário inesquecível.
O Desafio dos 11 Quilômetros
Neste primeiro dia de caminhada, a trilha foi tranquila e paguei apenas uma taxa de entrada no povoado do norte. Após percorrer aproximadamente 11 quilômetros, cheguei finalmente ao povoado do sul.
Para celebrar a meta batida, encontrei um restaurante aberto e almocei com uma vista privilegiada para o Titicaca. Com a energia renovada (e a barriga cheia!), segui para a pousada para um breve descanso antes do espetáculo final do dia: o pôr do sol. Mesmo com o céu um pouco encoberto e um frio intenso, ver as cores mudando sobre o lago fez cada passo valer a pena.
Um Presente do Universo
Ao cair da noite, notei algo curioso: dois pontos extremamente brilhantes e alinhados no céu. Mais tarde, na pousada, descobri que não eram apenas estrelas. Justamente naquele dia tão marcante para mim, o universo exibia um evento mágico: o alinhamento entre os planetas Júpiter e Vênus.

Foi o fechamento perfeito para um dia inesquecível. Agora, restava descansar para descer a ilha, pegar o barco de volta a Copacabana e seguir viagem rumo a La Paz. Em La Paz, ir para Sucre. Mas essa aventura fica pra parte 2.
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Parte 2 – Entre Templos e Mistérios: Um Dia Mágico na Isla del Sol
Mistérios incas com o nascer do sol na Isla del Sol. A continuação do meu relato de viagem entre templos sagrados, fontes da juventude e novos encontros na Bolívia.
O despertar no frio andino
Acordei cedo, ainda sob o manto do frio, na esperança de capturar o nascer do sol. Tentei observar pela janela do quarto, mas a vista não colaborava. Sem pensar duas vezes, vesti o casaco e encarei o ar gelado lá fora. Na hora em que os primeiros raios surgiram, a ansiedade bateu e acabei deixando a câmera no modo automático — as fotos não ficaram exatamente como eu imaginei. Mas tudo bem, o aprendizado na fotografia, assim como na viagem, vem aos poucos.
Curiosidades pelo caminho
De volta à pousada, tomei um café reforçado e iniciei a caminhada. Logo de cara, uma surpresa: um lugar vendendo pizzas vegetarianas em pleno “meio do nada”. Logo adiante, encontrei um campinho de futebol com um mirante espetacular. O lugar era tão isolado que imaginei o quão incríveis seriam as fotos do céu estrelado ali durante a noite.
Segui o trajeto passando por mirantes, cruzes e as intrigantes mesas de sacrifício, mergulhando na história local a cada passo.
O Templo do Sol e um novo amuleto
Após uma conversa agradável com um casal de ingleses, o caminho passou a ser uma descida constante até o Templo do Sol. A estrutura impressiona e remete muito ao templo de mesmo nome em Cusco, no Peru.
Depois de explorar as rochas sagradas, segui em direção ao povoado pelas famosas Escadas Incas. No caminho, uma lojinha me chamou a atenção. Era o momento de substituir o chapéu que perdi no Cerro Calvário. Embora tenha ficado triste por perder o companheiro da “Travessia do Descobrimento”, senti que era a hora de dar lugar a uma nova recordação. E que lugar melhor para isso do que a Isla del Sol, um destino que sonhei conhecer por anos?
Águas sagradas e encontros inesperados
Já de chapéu novo, desci as escadarias até a Fonte Inca. Dizem que pode ser a “Fonte da Juventude”… Na dúvida, não arrisquei: enchi minha garrafinha e tomei um bom gole!
Ao chegar no porto, por volta de meio-dia, recebi a notícia de que o próximo barco para Copacabana só sairia às 16h. Aproveitei o tempo para almoçar ali mesmo, de frente para as imponentes estátuas de Manco Cápac e Mama Ocllo. O que poderia ser uma espera cansativa tornou-se um momento de conexão: conheci um americano, uma indiana e reencontrei uma espanhola que tinha visto no Cerro Calvário.
Rumo ao descanso
Acabamos voltando todos juntos para La Paz, dividindo histórias e até o táxi do ponto final do ônibus até o centro. O dia foi longo e inesquecível, mas agora o foco é descansar. Afinal, o despertador vai tocar cedo para o próximo voo.
No próximo post eu te conto como foi trocar a altitude de La Paz pelo charme colonial de Sucre!
Acompanhaê!!!
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Índice da aventura
- Planejamento da viagem “Los Desiertos”
- 20/02/2023 – Corumbá (MS/BRA) e Puerto Quijaro (BOL)
- 21/02/2023 – Santa Cruz de la Sierra
- 22/02/2023 – Cochabamba
- 23/02/2023 – Torotoro
- 24/02/2023 – Deslocamento de Torotoro x Cochabamba x La Paz
- 25/02/2023 – La Paz
- 26/02/2023 – La Paz – Estrada da Morte
- 27/02/2023 – La Paz – Chacaltaya e Valle de la Luna
- 28/02/2023 – Copacabana
- 01/03/2023 – Isla del Sol
- 02/03/2023 – Deslocamento da Isla del sol x Copacabana x La Paz x Sucre
- 03/03/2023 – Sucre
- 04/03/2023 – Deslocamento de Sucre x Potosí
- 05/03/2023 – Potosí
- 06/03/2023 – Deslocamento de Potosí x Uyuni
- 07/03/2023 – Salar de Uyuni – Dia 1
- 08/03/2023 – Salar de Uyuni – Dia 2
- 09/03/2023 – Salar de Uyuni – Dia 3 – Chegada no Deserto do Atacama (CHL) e um Passeio por San Pedro do Atacama
- 10/03/2023 – Deserto do Atacama – Valle de la Luna
- 11/03/2023 – Deserto do Atacama – Pukara de Quitor e Catarpe
- 12/03/2023 – Deserto do Atacama – Piedras Rojas e Lagunas Altiplanicas
- 13/03/2023 – Deserto do Atacama – Ruta dos Salares
- 14/03/2023 – Volta pra casa



